quarta-feira, março 05, 2008

sexto dia

privilégio é ganhar poesia.


poesia de tarde e de noite e de parque


para mirella
para Philip Glass\1983-The Photographer

fim de dia
e a poesia
vem com seu rumo de marambaias
e cabelos cabelereira do mundo
o outro mundo que não sei de onde vem

esse mundo, que ficamos pelas frestas e que encontra-se
amores, missivas, anotações,
o tempo todo para amarrar o cadafalso do sapato
e você nunca arruma
e você sempre arma
a brincadeira
maior do mundo

para passar o dia todo correndo pelo brinquedo do parque
aquele
que você vai
lá no canto do mundo
e volta
e rasga pelos olhos
o brilho dos adeuses.


para nunca ter mais sede.

(m.frança)

domingo, março 02, 2008

quinto dia:

a simplicidade deixa a gente mais humilde, mais humano, mais maduro.




é preciso aprender a continuar sonhando mesmo sem dinheiro. e não achar que há algo errado em quem o tem. é preciso aprender a lidar com o papel, como é preciso aprender a lidar com credo raça idéia partido cozinha
burocracias perdas ganhos danos poesia lucidez metafísica ludiceza e fantasia. é preciso ter a manha da tal vida esférica, da realeza, do pé fincado no chão, quase cabeça de avestruz, da vida sem prêmio de loteria, sem herança de tio-avô, sem maleta recheada encontrada no aeroporto, sem caça-talentos que observe seu belo tra... sorriso na praia e te faça a mais nova estrela do momento. a manha da vida sem deslumbre, mas cheia de celebrações. é preciso celebrar com quase a mesma força de sonhar. é preciso estar atento também. e desconfiar das facilidades - aliás, desconfiar das facilidades é quase tão útil e importante quanto sonhar e celebrar. saber da fronteira, não perder de vista a linha, ter a manha dos limites imaginários entre as regiões. porque quando a vida chamar não vai ter a risca no chão avisando que ainda está dentro ou se já está fora nem legenda avisando que a cidade é outra, o bairro é ao lado, ou país é aquele. é preciso sonhar com 10,00 contados para ir ao teatro ver "por esta porta estar fechada as outras tiveram que se abrir" e lembrar com orgulho e ternura - porque o moço lindo disse bem, dessa a gente não pode se despedir jamais - que já se vendeu livro em sebo para ir ao cinema. mas isso tudo é um tanto fácil, porque aqui quando se pega o ônibus pro lado errado se ganha uma paisagem que chega a doer o coração, uma giganteza de verde montanhoso, uma estrada decidida como um bisturi sob imensas pilastras que esperam uma outra estrada, suspensa. erguida, ao alto, como parece ser tudo aqui. gente morna aconchegante e acolhedora que não desaprendeu a conversar mesmo depois daquele século vinte maluco e deste vinte e um estranho e gris. uma gente que vive de queijo leite café doce mel álcool e palavra, e palavra derramada, solta, levinhas levinhas, montes delas, que se não cuidar se perde uma tarde, apesar de não parecer essa a idéia aqui. conversar uma tarde inteira é tão - ou mais - normal que trabalhar pesado uma tarde inteira. minha garganta não agradece muito este costume, mas o resto do meu corpo vibra enlouquecido feito vespa em luz amarela e me faz pensar que só isso já me põe no paraíso. e completa hoje um mês que pus a cabeça para fora da janela do ônibus que percorre o caminho Rio de Janeiro-Belo Horizonte e meu coração só pensa que não podia ter tomado decisão mais acertada para a vida. que o cheiro daqui já parece velho conhecido, de mato de serra de Horizonte, parece mesmo o de lá, da minha casa do sítio, e o povo devagar - que felizmente não é só em Itabira -, a tarde devagar, a vida devagar, e benzadeus que é besta.

sábado, março 01, 2008

quarto dia

Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo inclusive nada.
A lagarta rasteja até o dia em que cria asas.
Se avexe não, que a burrinha da felicidade nunca se atrasa.
Se avexe não, amanhã ela pára na porta da sua casa.

Se avexe não, toda caminhada começa no primeiro passo.
A natureza não tem pressa, segue seu compasso,
Inexorávelmente chega lá.

Se avexe não, observe quem vai subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira,
Pra ir mais alto vai ter que suar.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

terceiro dia

Par le First Rendez-Vous

1) Nunca perder o entusiasmo infantil e coisas boas acontecerão.

2) Se, mesmo lamentavelmente for hora de separar, cada um pega uma ponta da linha e na outra guarda o coração do outro.

3) Amor também é cuidar de si.

4) Cuidar de si às vezes é deixar partir.

5) Deixar partir pode ser manter ainda olhos e mãos bem por perto.

6) Amor é disposição.


Nada me move nem me faz parar a não ser a vontade de te encontrar.

domingo, fevereiro 24, 2008

Segundo dia

há privilégios em amanhecer para jardim:
vi uma borboleta nascer bem em cima do meu nariz.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

das aprendizagens do tempo das aprendizagens

Primeiro Dia

Uma Didática da Invenção.

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca.

b) 0 modo como as violetas preparam o dia para morrer.

c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos.

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação.

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois
lagartos.

f) Como pegar na voz de um peixe.

g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.

etc


etc


etc



Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

eu nasci pra brincadeira
nasci pra bater tambor, sei que morro mas não deixo meu colega, meu valor.

e ainda acho, alessandra,
que tu tem razão: quem não sabe o tombo não anda na proa.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O tapete da realeza é verde.

sábado, fevereiro 09, 2008

ele continua lindo

e eu continuo não conseguindo largar.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

o ano novo chinês, as cinzas brasileira

e a moça do tempo anuncia poeticamente: o sol não vai sair nesta quarta-feira.

terça-feira, janeiro 29, 2008

chaaaaagas

tô pior que o Forest Gump.

domingo, janeiro 13, 2008

eu quero é todo mundo nesse carnaval.

a lua me chama
a luz vai correndo, dizendo que eu a gastei toda, lembrando que tenho coisas a fazer de dia ainda e eu funcionando a 30% da potência normal. e o pior, feliz que só.

do tremelique dela
dessa vez vou. e a gente vai fazer um par. já tá tudo ensaiado.

e há quem diga
que eu morri de medo quando o pau quebrou.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Nada mais encantador que as labaredas de uma fogueira.
Eu feita de amanhecer, asa, um breve canto e destorpor.

Nada mais hipnotizante que o silvo de uma serpente.
Tu, teu poder, tua chama, meu material condutor.

Da data que se avizinha, como a fera já cantada
Só me restam mudos duetos com mulher já morta
Enviada, envolvida em seus próprios tecidos de palavras
Para guardar, porque quero, o calor castrado de nossas cinturas.


E porque de ti só quero os meus versos.

Das loas

ô céu azul, esse teu canto negro e misterioso de liberdade, será que vou levar?

"o mar se deitou na areia
ouvindo a canção nagô
é a mãe da terra inteira
chamando os filhos de toda cor
me leva, meu bem, me leva
pra dentro da noite azul
me leva, meu bem,
me leva pro maracatu."

quinta-feira, janeiro 03, 2008

e entendi que às vezes sobram até poemas na gaveta.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

partiu, partindo

a hora é de partir.
chego em todos os lugares partindo.
sorrio partindo.
cumprimento despedindo.
entro já saindo, contando
nos dedos o tempo
que corre fugindo.
e esses dias
um céu teu tão
azul, fortaleza
que se não fosse
a vontade que
anda ardendo, fazendo
da alma represa
eu pensaria em
despedir mais um pouco
ainda, ir indo ficando
só pro olho gostar
de te levar, mais detido
menos urgente
e mais veloz.

segunda-feira, dezembro 24, 2007



antes de ir embora vou fazer uma ode ao mar.
vou pisar na areia e fechar os olhos às cinco e meia da tarde.
vou sentar e prestar bem atenção no cheiro salgado.
pensar que ele é inocente e arredio, respirar profundeza, que a tensão é superfície e a vida quase nunca é lago.
vou escrever meu poema mais bonito e deixá-lo nômade numa garrafa com rolha. mas é para iemanjá.
será um verso branco, perfumado como jasmim, rendado labirinto de palavras. veloz, como ele disse um dia.
antes de ir embora vou dançar uma ciranda com a multidão imaginária.
todos que me já seguraram a mão festejarão a minha ciranda. porque vai ser primavera, verão, noite inteira, e bate no tom cardíaco de meu compasso.
é que tenho vários compassos.


antes de ir embora vou fazer uma ode à lua.
vou montar em um cavalo na hora gatuna, lança em punho, firmeza, esperança e certeza para toda encruzilhada.
vou abrir o peito para as chagas, vou cantar uma suave melodia e vou voar.
será uma canção azul, como o mundo visto do espaço, e será também negra, mestiça, burlesca, porque quem tem muito do mundo quer todos os pigmentos, etnias e instrumentos.
então será inevitavelmente uma canção de amor escarlate em tom maior.
e já não haverá mais dragões a perseguir, guerras a vencer, inimigos a que se proteger.
cantarei o destino alado de minha montaria com quase displicência desmedida. corajosa.
é que tenho vários caminhos.


antes de ir embora vou fazer uma ode ao sol.
vou chegar de madrugada e debruçar-me acácia na janela, esperando amante você chegar.
de minha janela vai nascer o dia, e dos olhos do sol em mim, mais uma primavera.
será como se fôssemos cingidos por um imenso hálito amoroso, roda de fogo fazendo música em volta das nossas cinturas.
verão nessa estação rodas como as de ezequiel, coisa semelhante a carvão ardente, parecida a tocha, que ia e vinha errante entre os seres viventes.
uma nuvem que vai do azul ao amarelo laranja e vermelho em instantes, como também seu próprio inverso.
resultará espiralado movimento, arrebatamento íntimo e sede estrangeira.
e terra fecunda, algo de dentro se move e irrompe reverência.
é que tenho aquela dança.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

será um jogo intenso que se anuncia?

quinta-feira, dezembro 20, 2007

da felicidade desmedida

sorte
é pra quem enxerga

ô jorge
obrigada pela roupa

2007,
tu lavou minha alma.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Da Intensidade

tens razão:
em uma semana
somos apenas
já distantes
e esquecidos
vultos.

domingo, dezembro 16, 2007

eu vou acender uma vela pra ti, dona hilda, uma vela vermelha, rubra, meu amor, porque tu carece de chama acesa sempre, que eu sei.


Que gosto esse do Tempo
De estancar o jorro de umas vidas.

**

Cegos, não somos dois
Apenas pretendemos
Devorados e vastos
Temos um nome: EFÊMERO

**

E consumida de linhas
Enovelada de ardência
Te aguardo às portas de minha cidade.

**

E afinal
Cara a cara (espelho e faca)
De nossas duplas fomes
Não diremos.

**

És caça e perseguidor
E recriaste a Poesia
Na minha Casa.

**

Graça e alívio
De te alcançar.

**

Vigio
Esta sonoridade dos avessos.
Que se desfaça o fascínio do poema
Que eu seja Esquecimento
E emudeça.

**

Do estar ali e largar-se
Da tua vida.

**

Que pretensões de um sentir
Tão excedente, tão novo
São questões para o divino

E ao mesmo tempo um estorvo
Pra quem nasceu pequenino.
Tu e eu. Humanos. Limite mínimo.

sábado, dezembro 15, 2007

Déjà Loin

duro imaginar você, turbilhão, em fevereiro, sorrindo os olhos pela cruz dos pequenos campos, ou pela santo honório, ou ainda pela do dia, de mão em triângulos, de memória olvidada. saber que o círculo de fogo em voltas, audível como o descrito antes, que meu claro déjà-jamais vu, foi invenção podada. mas haverá sempre uma janela, acho eu, e existem os movimentos terrestres e lunares, as reviravoltas das marés, os sóis se pondo as auroras resplandecendo e todo o mistério do mundo, e o deus da música não abandona. é sempre da vida o que ele quiser.

como sempre diz um bom amigo meu: a vida é um pandeiro.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

nem um pio

o problema é o silencio
é ter um abismo, um muro
escuro de silêncio que faz
invisível - o que se quer mostrar
mudo de impossibilidade
e saber que se só riso fosse
seria toda a costa, hoje
vermelha de querer.