sexta-feira, julho 14, 2017
sexta-feira, julho 07, 2017
quarta-feira, junho 28, 2017
Sabe, aos poucos você nem dói mais quase nada. Você ainda existe, você ainda beija, ainda bate, ainda some com as chaves de casa, ainda passa o meu café, ainda brilha debaixo do sol, ainda zomba do futuro, ainda pulsa no meu pulso quando vem em uma tarde morna dessas, mas confesso que já não dói mais quase nada. Eu não tenho nenhuma pressa, sei que vai parar de doer um dia, pode vir enquanto não há adeus.
quinta-feira, junho 01, 2017
In the break of day
Hey, brothers
Say, brothers
It's a long, long, long, long way
Nasci terrena, fixa e cardeal. Nasci forte, ruminante e cega como um bode. Como um bode. Nasci poço de terra cavado a mão. Nasci olho que mira o alto da montanha. O alto da montanha. De terra, recebo chuva, tormenta, enxurrada. E também não recebo nada. Nasci densa, porosa, entranhada, firme, orientada. Ao mesmo tempo bode e montanha. A água com a areia brinca, na beira do mar. A água passa. A areia fica no lugar.
segunda-feira, maio 29, 2017
Sobre algumas coisas que aprendi das plantas:
Existem ciclos. Ainda que não se sinta, não se saiba, não se perceba nem se queira. Existem ciclos.
Não há diferença entre as existências, tudo existe e é interdependente: o vaso, a terra, a formiga, o ar, a água, a outra planta, o humano, a lata de tinta, o pássaro, o nada, a noite, o dia, a fumaça, o barulho, a visita, o excremento, o amor, a semente, o fungo, a alegria, o sulfato de cobre, o intruso, a bacia, a garrafa pet, a dúvida, o pote de azeitona, a memória, o medo, o buraco na parede que espera pacientemente a instalação de uma lâmpada, a energia. Tudo existe porque tudo existe.
É possível viver separado. É possível viver cada qual no seu próprio vaso. Quanto mais distantes os vasos, mais possível ser separado. Qualquer proximidade entre os vasos ameaça essa separação. A aproximação dos vasos fortalece a passagem do ser pelos diferentes ciclos.
Ainda que seja capaz de florir apenas uma única vez, nunca deixará de ser florífera. Se é o que se é, antes, muito antes do que se parece ou do que se mostra ser.
Tudo muda e não é demagogia. A flor seca, o fruto nasce, o fruto apodrece, a semente do fruto seca, um novo ramo pode irrompê-la, uma nova planta nasce. A isso se chama fluxo. Transformação, mutação, renovação, ciclo, são apenas partes do fluxo. O que move é o fluxo. O irrefreável fluxo.
A vida é sempre abundante. Mas se quisermos perceber isso, temos que acolher os ciclos. Somos frequentemente iludidos pelas flores e pelos frutos, como se só ali houvesse vida e abundância. A própria vida que uma planta mantém no inverno rigoroso ou na seca agreste já é abundância.
Tudo bem morrer.
sábado, abril 29, 2017
Tenho um laboratório de presente. É um laboratório lindo, sibiloso e dócil como o vento de outono lavando o sol do sudeste. Sonoro e vivo como a brisa do mar que conheci criança e carrego no peito. Nele é sempre dia. É onde o minuto se expande, o tempo se curva e há uma certa reverência em nós para a experiência possível desse tempo novo. E cheira bem, o danado, às vezes jasmim, outras romã. Houve um dia que cheirava a dama da noite, mas foi por um instante, logo nos devolveu o cheiro, com menos apego do que de costume frente a um cheiro tão burguês. Controlar o tempo é um hábito mesquinho do mercantil. É expressão de poder e posse e o presente é uma entidade delicada e livre. O presente é o gozo de tudo. É o exercício de ver apenas o que existe, o que é, o que está sendo, nem o que foi, nem o que vai ser, nem o que poderia ter sido, nem o que gostaríamos que fosse. E nos permitirmos o prazer de apenas ficar sendo.
terça-feira, março 28, 2017
O trabalho de desamar é ao mesmo tempo como o das formigas e os de Hércules. À medida em que é digno, bestifica. Se de um momento sente-se o genuíno prazer de vencer o passo dado, aquele tão humano, tão dentro do que sabemos ser nosso possível, de outro apavora - como se houvéssemos acabado de presenciar o nosso próprio suicídio - que não tenhamos caído no poço fundo do corpo nu que nos visita fora de hora.
domingo, março 12, 2017
Nunca havia percebido como você se mostra ameaçador. Como essa sua cara cortada no miolo de si aparece dura e constrangedora naquele retângulo que abre espaço para a sua casa virtual. Não parecem boas vindas, parece "só existe eu". Sofri anos culpada por meu egoísmo, mas agora me diga, como não ser egoísta perto de alguém que derrama ego? Como não ser egoísta com alguém que demonstra amor com objetivos, nem que seja por defesa? Por medo? Por não elaborar mas entender que há algo errado? Amor que se cobra, o que se é?
segunda-feira, março 06, 2017
sexta-feira, fevereiro 10, 2017
segunda-feira, dezembro 19, 2016
XII
Serena face
distanciando
o meu desejo.
Tão longe estás
que já nem sei
o que te assombra
alga ou areia
mar ou lampejo
de desencanto.
A minha boca
emudeceu.
Se retornando
não a encontrares
pensa no amor
chama e soluço
que se perdeu.
Solto os cabelos
e fico à espera.
Mas sobre mim
como na morte
crescem as heras.
domingo, dezembro 18, 2016
quinta-feira, dezembro 08, 2016
I
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um vôo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um vôo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
terça-feira, novembro 22, 2016
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
terça-feira, outubro 11, 2016
quarta-feira, setembro 28, 2016
domingo, setembro 25, 2016
XIV
Telhas, calhas
Cordas de luz que se fizeram palavra
Alguém sonha a carne da minha alma
Ecos, poço
O esquecimento perseguindo um corpo
Aqui me tens entre a vigília e o encanto
Cativa da loucura
Perseguindo o louco.
Cordas de luz que se fizeram palavra
Alguém sonha a carne da minha alma
Ecos, poço
O esquecimento perseguindo um corpo
Aqui me tens entre a vigília e o encanto
Cativa da loucura
Perseguindo o louco.
quarta-feira, setembro 21, 2016
1
Não vale a pena
Fazer um gesto
Não se resiste
Ao Deus atroz
Que aos próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Fazer um gesto
Não se resiste
Ao Deus atroz
Que aos próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
terça-feira, setembro 06, 2016
Seasons came and changed the time
When I grew up I called him mine
He would always laugh and say
"Remember when we used to play"
Saudades de quando eu ainda tinha você e quando meu mundo carecia, faltava e não convinha, você era a minha utopia
Só isso, minha transcendência do marasmo, minha impossibilidade ressignificada, meu campo do possível
Saudades de quando eu tinha você, meu fade out, minha fortaleza desgovernada, uma pequena varanda nos dias quentes de tanto sol. E era um ar puro como o ar das trevas, e eu já sabia, um vento sibiloso no carretel das noites
Aquele portal. Era isso. Um portal
Era você de quem eu me desterrava, de quem eu não suportava minha agonia. Meu vento do leste no pôr do sol vermelho da rude cidade que se abre em leque para o nada
Me perguntava - tu é de prosa
Eu era longa, macilenta, movediça. E tinha medo. Porque você tinha aqueles olhos de cobra, despertava umbigo, desfazia serração no meu ventre
E ia embora na caatinga, na mata atlântica, na amazônia, no cerrado, haste em punho cenho franzido - era ibérico? - nunca soube
Provável que não, era carvalho, era doce como o céu lilás das dezoito horas daquela cidade que perdia nossos passos em dois mil e cinco e eu nada podia fazer - eram os aviões
O destino verborrágico e eu assistia. Dentro. Antes. Eu sabia, todas as noites em que eu não podia, sem forças, sem ganas, sem brios, eu era ali em umas mandingas e eu já sabia, do verde daquela lagoa, do cabelo curto dela, daquele monte de letra gasta naquela tela numa tinta japonesa no hall do apartamento velho do centro no dia de sol em copacabana, eu sabia do tamanho que me sobrava, do tamanho que eu não fazia
E você? Umas tardes úmidas te bastam. Um pé novo, um cheiro de talco - minha letra desgastada umas duas horas de dezenove anos que eu te via vindo pela escada com uma pasta aprendendo a ser, eu ainda nem era
Aquele corredor - um no ar patético piscava - um brasil acontecendo distante em umas frequencias apagadas - um registro e um luto - tensão fina e muda - minha espinha na parede - volte - são apenas tópicos - nunca foi ciência
E o que foi do tempo, do lodo das atitudes, do breu dos passos dados, das heras no alto muro da memória? uma hipótese: eram o futuro. Um sino rouco que toca ao longe, a sina da vida que podia ter sido e que não foi.
Mas já amanhã esqueço. É que hoje - hoje - são duas horas da manhã e o que eu tenho já não me basta.
06/03/14 Dom. 01:53
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