sábado, janeiro 30, 2010

Ele tinha uns olhos azuis como os de T.J. Eckleburg. Um dia me disse que minha vida inteira mudaria a cada sete anos, mas não confiei. Achava à época que sete anos era mesmo uma vida e que não haveria com o que me preocupar. Qualquer mudança em sete anos seria pelo menos natural. Mas não é. Sete anos não são nada, absolutamente nada, e aquilo foi uma profecia. Ou uma praga rogada.

Paciência.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Quando cheguei, já passando das nove, ainda havia um resto de meia lua no céu. O muro enegrecido pela chuva, muito maior do que sempre foi, acompanhou-me em solene silêncio, concordando que, apesar de tudo, aquela lua deixava a manhã mais bela.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Não posso ler "voltei", sem completar mentalmente "recife".

domingo, dezembro 13, 2009

Gostaria de ter uma mente sadia e minimamente livre, mas a poesia é impossível na classe operária. Não, pelo menos, quando se é um operário sadio.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Somente uma explicação
exijo: porque insistes em
manter-me impotente sob
tuas imensas asas negras?

sábado, novembro 28, 2009

As duas me olhavam, uma sentada na poltrona gasta pelas unhas de Raul, a outra na cadeira gasta desde a loja, tomávamos café e Hilda me reclamava vinho do Porto. Eu era incapaz de negar-lhe razão, mas em minha casa mal havia um conhaque Dreher que usamos ano passado para adoçar o frio. A outra, que jamais irei lembrar o nome, tinha uma cabeleira anelada, olhos puxados e a cada ano de seu tempo próprio correspondiam dois. É de um vagar que nos incomoda. Esperavam de mim uma explicação, um motivo, uma justificativa. Sinto muito, foi o que pude dizer, sou apenas isso. Percebo Hilda, além de irritada com minha pouca oferta, a decepção que engole, amarga como meu café. Percebo minha outra amiga, lenta e gorda, duas vezes meu passado, demorando para dizer que já sabia. Mereci três baforadas de Hilda antes de dizer que eu era uma idiota e que iria para casa, que, aliás, havia sido por causa de gente como eu que havia perdido o gosto pela rua. A outra riu um riso esticado, pendendo a cabeça para trás - muitas vezes esse gesto, apesar de parecer uma resposta afirmativa, era um jeito vagaroso de dizer sem dizer que a outra pessoa não passava de uma tola -, limitou-se a dizer "êh, êh" e achei que talvez se chamasse Irene. Ouvi duas xícaras tilintando ao mesmo tempo nos píres e quando isso acontecia era a hora de irem embora. Dessa vez não fui deixá-las na porta, disse que fossem, que sabiam o caminho. Hilda partiu na frente prometendo não voltar mais. Irene levou quatro minutos para andar os dois metros que a distanciavam da porta e esqueceu-se de se despedir.

domingo, novembro 08, 2009

partiu ao som de a sunday smile
fiquei ao som de chega de saudade.

terça-feira, novembro 03, 2009

que o dia acabe, que o ano vire, que a terra gire, que o céu escora, que a bala volte, que a sorte jogue, que o corpo padeça, que o plano morra, que o tempo mude, que o inverno esqueça, que o peso devore, que o universo exploda.

quarta-feira, outubro 28, 2009

meu coração não costuma me enganar.

segunda-feira, outubro 26, 2009

entrou em casa meio lua, cabeça alta, cheiro de noite. Disse meia palavra entre-olhos novos, minguou um verso feito felino, encheu-se de mim e partiu.

sexta-feira, outubro 23, 2009

síntese

facão e espada, rum e tabaco.

quinta-feira, outubro 22, 2009

encontrarei
alegria em nome da rainha e folia em nome de reis.

quarta-feira, outubro 21, 2009

gênesis

o ser humano é a própria serpente.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Cremaram os calendários.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Corpo é uma porção limitada de matéria.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Disse uma vez
- Este é o espelho, você é de leão.

Não era. Era de barco vazio num rio de tédio.

quinta-feira, setembro 17, 2009

conheço
it's only words. good luck.

terça-feira, setembro 15, 2009

não tenho mais tanto medo. um dia as coisas vêm. um dia elas tomam conta. um dia elas se fazem inevitáveis, evidentes, irremediáveis. um dia. hoje é apenas hoje.

quinta-feira, setembro 10, 2009

3

Quisera descansar as mãos
Como se houvesse outro destino em mim.
E castigar as falas, alimárias
Vindas de um outro mundo que não sei.
Fazê-las repetir suas longas árias
Até que a morte silencie as mandíbulas
Claras.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Fechou os olhos e pensou: pode ir.

terça-feira, setembro 08, 2009

- Levanta essa cabeça, menina, arregala o olho, arrebita o nariz. Foi assim que te fiz.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Você tem que se assumir branca, minha filha, ter orgulho de não ter cor. Tem que parar de brigar com o cabelo que não adianta, não trança, é mole sim, escorrido, e deve ter a sua beleza. Tem que entender, meu bem, quando for velha a pele vai ficar mesmo opaca e amassada, não vai emanar uma gota luz. Tem que entender do jeito branco, que é devagar, frágil, comedido, discreto, do cabelo branco em cima da pele branca como uma anágoa de vestido de noiva. É melhor não implicar com isso que sol não faz bem, dá doença, mancha e não ajeita.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Setembro chegou com fogo nos olhos.
Batendo estaca, varrendo o ano com
a cauda. E ainda é só um tempo, um
grave espaço entre dois membros,
dois nomes, dois ponteiros. Setembro
é o que existe entre minha cabeça
e meu pé. Entre onde subo e onde desço
do ônibus. É o que me espera
na estação: nenhuma tarde vazia.
Setembro é o que existe entre
quaisquer dois pontos do universo
e não compreende uma tarde vazia.