na esquina daquela rua veio surgindo
amarelo e branco, assim meio desbotado
coxo e fatigado, um sorriso franco de
regalos de españa, um vidro de sal,
uma seda de lilases nascidos no outono
um punho fechado, ouro e prata, que
há muito se entrega como esperança.
domingo, março 22, 2009
sexta-feira, março 20, 2009
Se chamava Pacífico e era o menor de todos os oceanos. Tocava dois ou três países e não ligava continentes. Não se destinou a obstinações humanas, ao tráfico obreiro, ao saque e estupro pirata. Tão pequenino; não tinha início nem fim, pois a nenhum lugar levava; era o principal destino dos banhistas. Abria-se para as crianças, para os animais e esperava semanas inteiras a lua vir banhar-se, e, quando a visita se fazia por completo dentro dele, muito alta madrugada, abundavam espumas nas ondas a ponto de encher o céu de bolhas de sal. Na costa de Pacífico costumava-se atribuir a essas bolhas, a manifestação de sua alegria, e dizia-se que quem entrasse no mar morno daquelas noites, dormiria o mais tranquilo dos sonos.
Pacífico, como os animais e as crianças, não tinha um programa. Ia-se e voltava-se, pulsando na areia, como bateria seu coração, se o tivesse. Desviava tempestades, enviava brisas pela manhã e as retinha durante a noite, orgulhoso de sua brincadeira de maresia, tinha apenas o tempo de viver. E, como se comporta o coração das crianças e dos animais, nada o detinha exatamente, apenas a visão daquilo do que mais gostava: o momento maravilhoso em que a lua despontava no céu - e vinha caindo lentamente em sua direção, aumentando sua felicidade em existir tão pequeno, pois tinha certeza, que se medisse um tanto mais, poderia perdê-la de vista.
Um dia a amiga não veio. Pacífico não se desesperou, podia ser que estivesse escondida por detrás das nuvens passageiras, embora pudesse distinguir perfeitamente marte, vênus e umas três estrelas já há muito mortas. Naquela manhã o sol despertou constrangido. Evitava olhar Pacífico que, àquelas alturas, mais parecia um lago. Sem saber, as crianças festejavam a completa inatividade do pequeno oceano. Entravam sem medo onde deveria ser cautela e mistério em qualquer um que fosse autoritário e sombrio. Previam, os pequeninos, que havia sido abolido definitivamente o limite que os separavam do horizonte. Enquanto Pacífico murchava, derramava, as crianças cresciam, a princípio somente as mais corajosas, depois, um bando delas.
A medida em que o tempo passava, a lua não vinha, Pacífico entrava mais na areia solta, matando-se aos poucos para diluir sua tristeza, e as crianças avançavam poderosas, seduzidas como marinheiros. Pacífico resistia e morria com a esperança de que algo se revelasse. Onde antes as crianças brincavam, hoje aquelas mesmas já haviam feito casas, ginásios, escolas, bares e outras crianças que, como mandava a nova tradição do lugar, também avançavam obstinadas o oceano, agora - desconfiava-se - até esquecidas do objetivo que teria impulsionado os primeiros desbravadores. Aparentemente, jamais souberam que naquele pequeno braço de mar a lua costumava desaparecer morna e nunca haviam presenciado uma bolha de sal.
Desde aquela noite a lua jamais voltou. O desparecimento de Pacífico não foi exatamente percebido, pois a cada dia significava uma coisa diferente para os moradores do que antes seria sua costa. Umas vezes era mais espaço para as necessárias construções, outras, aparente solução de problemas náuticos, ampliação de centros de convenções, plantação de arroz, parques, avenidas, contribuições científicas. Sua atitude não foi avaliada, como não se deve avaliar o compotamento dos pequeninos. Foi compreendida com tolerância - e satisfação - por aquele povo que já não se banhava mais em nenhum mar.
Depois que Pacífico desapareceu, processo que por sorte levou muitos anos de resigação - visto que ele jamais exigia nada, preferindo retirar-se a lidar com assaltos violentos a seu espaço, à sua dor e saudade; com a decepção em ver que aquele pequeninos, tão pequenos quanto ele, crescendo não à medida, mas por consequência de seu desaparecimento; e com a dor profunda e sem nome que, se solucionada, inundaria toda aquela nova cidade, bastando apenas que a lua voltasse - alguém mais antigo e mais atento teria percebido que por mais que se entrasse naquele mar, não havia horizonte a chegar. Aquele era um oceano tão pequenino que não ligava nenhum lugar a lugar algum, e era por isso que não se prestava aos ataques, às expedições, aos cruzeiros. Ele existia apenas para receber a lua, de quando em quando, uma vez por mês.
Pacífico, como os animais e as crianças, não tinha um programa. Ia-se e voltava-se, pulsando na areia, como bateria seu coração, se o tivesse. Desviava tempestades, enviava brisas pela manhã e as retinha durante a noite, orgulhoso de sua brincadeira de maresia, tinha apenas o tempo de viver. E, como se comporta o coração das crianças e dos animais, nada o detinha exatamente, apenas a visão daquilo do que mais gostava: o momento maravilhoso em que a lua despontava no céu - e vinha caindo lentamente em sua direção, aumentando sua felicidade em existir tão pequeno, pois tinha certeza, que se medisse um tanto mais, poderia perdê-la de vista.
Um dia a amiga não veio. Pacífico não se desesperou, podia ser que estivesse escondida por detrás das nuvens passageiras, embora pudesse distinguir perfeitamente marte, vênus e umas três estrelas já há muito mortas. Naquela manhã o sol despertou constrangido. Evitava olhar Pacífico que, àquelas alturas, mais parecia um lago. Sem saber, as crianças festejavam a completa inatividade do pequeno oceano. Entravam sem medo onde deveria ser cautela e mistério em qualquer um que fosse autoritário e sombrio. Previam, os pequeninos, que havia sido abolido definitivamente o limite que os separavam do horizonte. Enquanto Pacífico murchava, derramava, as crianças cresciam, a princípio somente as mais corajosas, depois, um bando delas.
A medida em que o tempo passava, a lua não vinha, Pacífico entrava mais na areia solta, matando-se aos poucos para diluir sua tristeza, e as crianças avançavam poderosas, seduzidas como marinheiros. Pacífico resistia e morria com a esperança de que algo se revelasse. Onde antes as crianças brincavam, hoje aquelas mesmas já haviam feito casas, ginásios, escolas, bares e outras crianças que, como mandava a nova tradição do lugar, também avançavam obstinadas o oceano, agora - desconfiava-se - até esquecidas do objetivo que teria impulsionado os primeiros desbravadores. Aparentemente, jamais souberam que naquele pequeno braço de mar a lua costumava desaparecer morna e nunca haviam presenciado uma bolha de sal.
Desde aquela noite a lua jamais voltou. O desparecimento de Pacífico não foi exatamente percebido, pois a cada dia significava uma coisa diferente para os moradores do que antes seria sua costa. Umas vezes era mais espaço para as necessárias construções, outras, aparente solução de problemas náuticos, ampliação de centros de convenções, plantação de arroz, parques, avenidas, contribuições científicas. Sua atitude não foi avaliada, como não se deve avaliar o compotamento dos pequeninos. Foi compreendida com tolerância - e satisfação - por aquele povo que já não se banhava mais em nenhum mar.
Depois que Pacífico desapareceu, processo que por sorte levou muitos anos de resigação - visto que ele jamais exigia nada, preferindo retirar-se a lidar com assaltos violentos a seu espaço, à sua dor e saudade; com a decepção em ver que aquele pequeninos, tão pequenos quanto ele, crescendo não à medida, mas por consequência de seu desaparecimento; e com a dor profunda e sem nome que, se solucionada, inundaria toda aquela nova cidade, bastando apenas que a lua voltasse - alguém mais antigo e mais atento teria percebido que por mais que se entrasse naquele mar, não havia horizonte a chegar. Aquele era um oceano tão pequenino que não ligava nenhum lugar a lugar algum, e era por isso que não se prestava aos ataques, às expedições, aos cruzeiros. Ele existia apenas para receber a lua, de quando em quando, uma vez por mês.
terça-feira, março 17, 2009
Gosto de te imaginar cruzando uma rua, coarando no sol, e, distraído, reconhecer meu vestido verde do dia em que me conheceu. Acredito que iria prender os cabelos enquanto corria pelos traços brancos até o outro lado, eu de costas, olhando vitrines esquecida daquele dia mais abrupto. Então, claro como um cristal, pegaria em minha mão ainda voltada e de um giro, dedo silenciando minha boca palma em meus olhos lábios encostados aos meus ouvidos, diria eu também um fantasma, insistente vestido branco cruzando os carros nas avenidas, o tempo eclipsado de desde, até, diria de uma agulha no peito sangrando todos os dias o silêncio a distância o erro o acaso a saudade. Meus olhos fechariam, seria contramão onde era mão e os carros encenariam um ballet, todos os sinais, antes verdes, depois amarelos, sempre vermelhos tingindo o azul daquele céu mais caótico do Brasil. Meus lábios abririam levemente para cada um dos lados - não um sorriso assim largo como o seu -, minha mão seguraria seu dedo e a palma sentiria o calor dos seus olhos. Se me pedisse, te estenderia o meu tapete.
segunda-feira, março 09, 2009
bichana.
Com os gatos também aprendi muitas coisas, mas a mais valiosa delas é que o outro, por ser, em alguma medida, uma extensão de nós mesmos, é sempre uma ameaça desconcertante. A consequência disso é que todo amor é produto de um longo processo de aceitação e tolerância, sustentado, ora pela disposição, ora pela resignação.
A felicidade é conseguir receber ao final de tudo, um tesouro como os que podemos, sem a menor chance de dúvida, encontrar nas pontas de cada arco-íris.
A felicidade é conseguir receber ao final de tudo, um tesouro como os que podemos, sem a menor chance de dúvida, encontrar nas pontas de cada arco-íris.
quarta-feira, outubro 08, 2008
nomadismo é saber que chega a hora em que a casa já não é mais casa. não, nomadismo é saber que casa nunca é casa e que não tardará a chegar uma hora em que tudo será irreconhecível, teto, piso, sacada, em que tudo fará silêncio tão profundo dentro da casa que esta será além propriedade, excederá função, aquém coisa minimamente sua, sem seu tato e cheiro, sem qualquer rastro; ou parte de uma teia tão emaranhada de todos os artifícios, profusa de milagres e esferas, labirinto de palavras pontiagudas, mornas, flácidas, latejantes; e, nessa hora, é hora de pegar novamente a sacola, como todas as outras vezes, todas as vezes que se pega a sacola com sempre menos coisas que se parecem a si, a nós, sempre menos, é isso que é o tempo, sempre menos, e é isso que é a memória, cada vez mais espaços em branco e felizes os que pensam que são espaços por preencher; a sacola, eu dizia, essa das poucas coisas, cabe menos que um de nossos olhos, menos que metade de um de nossos olhos partida cada vez em mais partes, cabe quase nada, nem da casa, nem de coisa nenhuma; essa sacola passa-se a corda, despeja-se sobre o ombro, finge-se que desiste e que não há história alguma que fizesse mancha vermelha no dorso que a carrega, e com ela em si põe-se porta afora, joga-se do alto do monte mais alto dos mais altos de todos os montes, do mundo, põe-se sem asa no mundo porque é hora de ir embora outra vez.
terça-feira, outubro 07, 2008
segunda-feira, outubro 06, 2008
sexta-feira, outubro 03, 2008
quarta-feira, outubro 01, 2008
A palavra anda descuidada. Disse ele que foi homem. Que antes, quando ela era de Deus, ela continha verdade. Mas verdade é uma coisa estranha entre os homens, é como amor, cuidado, necessidade, responsabilidade e muitas outras coisas que, se a gente olhar bem, até mesmo quando ditas são tão imprecisas quanto quando são sentidas. A palavra, disse ele, perdeu o peso e a gravidade, e penso então o que mais ela perdeu, e se é mesmo perda, se algum dia existiu. Existir também é algo duvidoso, porque o dentro da gente é um abismo maior que o universo, e a gente é capaz ainda assim de olhar mais pro outro que pra si mesmo, de ver mais em alguém que em si, de desentender mais do outro do que a si. A gente é mesmo uma coisa que não deveria ter acontecido. A gente é um problema. Mas a gente é grandioso, porque sabe que há um problema. Saber também é algo muito esquisito, mas fico pensando o que não é. Acho que a única coisa que faz sentido é o silêncio, é olhar algumas coisas e calar, e deixar, e largar, e desfazer, e esperar, e continuar fazendo o que se pode, não muito o que se deve, porque só haveria dever se fossem claras a verdade e a existência. O que existe é o lugar, um lugar, e qual lugar a gente quer pra gente.
É tudo um sonho, uma farsa, uma idéia, autor, ator e platéia.
Espero que o pano caia pra sair batendo palmas
ou romper na maior vaia; ou dizer muito ao contrário:
que espetáculo tão frouxo, nem merece comentário!
É tudo um sonho, uma farsa, uma idéia, autor, ator e platéia.
Espero que o pano caia pra sair batendo palmas
ou romper na maior vaia; ou dizer muito ao contrário:
que espetáculo tão frouxo, nem merece comentário!
segunda-feira, setembro 29, 2008
acredito que chega uma hora que a vida dá uma oportunidade para a gente enxergar as coisas. isso é um lampejo, como a abertura de um portal. mas não é nítido, é algo extremamente obscuro, como saltar de olhos vendados em uma piscina desconhecida. e a gente só vai saber se é esse o tal momento se pular.
sábado, setembro 27, 2008
segunda-feira, setembro 22, 2008
segunda-feira, setembro 15, 2008
domingo, setembro 14, 2008
sábado, setembro 13, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
quarta-feira, setembro 10, 2008
terça-feira, setembro 09, 2008
segunda-feira, setembro 08, 2008
Sina
Da tarde em formulários. Da vida cansada. Dos empregos que mais me chamaram a atenção:
1) Degustador. motivos óbvios.
2) Almoxarife. Eu sempre gostei do nome. é que nem estivador. se bem que estivador também tem conotações fetichistas.
3) Artífice. não sei o que faz um artífice que não façamos todos. deve ser a mais natural das profissões. Requisito: existir.
4) líder de expedições. uau! meu sonho! gostaria de comandar a expedição que o marechal rondon liderou. só que dessa vez eu fazia com fibra ótica. todos me seriam gratos eternamente e as universidades daqui a uns anos criariam um projeto com meu nome.
5) Representante de serviços. tem coisa melhor que representar um serviço? deve ser igual a ator de profissões. você atua que desempenha determinado serviço, mas é so para mostruário, para os outros visualizarem o que é aquele serviço, você mesmo, não faz. a segunda profissão mais natural do mundo.
6) Captador. dispensa comentários. a gente põe um chumaço de bombril em cada mão, sobe no telhado e levanta os braços. mole, mole. ainda mais no verão.
7) Vendedor Autônomo. essa entra pela inconstância. e pela inconsistência. se é autônomo, como abre vaga?
8) Investidor Social. tipo eu, quando quero ser professora de literatura em comunidade carente.
9) Analista de Cargos e Salários. tipo eu, agora, fazendo exatamente o que estou fazendo.
10) Gerente Geral. Deus.
11) Negociador. terceira profissão requisito existência. meu pai é um exímio, não tem quem aguente jogar cartas com ele. se tivesse esta oferta em meados de 70 talvez a nossa vida hoje fosse outra e eu vivesse de renda.
12) Instrumentista Tubista. tipo o cara que faz a flauta?
13) Faturista. primeiro eu li futurista e já achei legal. depois li faturista e achei melhor ainda. adoro ganhar.
14) Motorista Carreteiro. o sonho de infância.
viver e não ter a vergonha de ser feliz.
1) Degustador. motivos óbvios.
2) Almoxarife. Eu sempre gostei do nome. é que nem estivador. se bem que estivador também tem conotações fetichistas.
3) Artífice. não sei o que faz um artífice que não façamos todos. deve ser a mais natural das profissões. Requisito: existir.
4) líder de expedições. uau! meu sonho! gostaria de comandar a expedição que o marechal rondon liderou. só que dessa vez eu fazia com fibra ótica. todos me seriam gratos eternamente e as universidades daqui a uns anos criariam um projeto com meu nome.
5) Representante de serviços. tem coisa melhor que representar um serviço? deve ser igual a ator de profissões. você atua que desempenha determinado serviço, mas é so para mostruário, para os outros visualizarem o que é aquele serviço, você mesmo, não faz. a segunda profissão mais natural do mundo.
6) Captador. dispensa comentários. a gente põe um chumaço de bombril em cada mão, sobe no telhado e levanta os braços. mole, mole. ainda mais no verão.
7) Vendedor Autônomo. essa entra pela inconstância. e pela inconsistência. se é autônomo, como abre vaga?
8) Investidor Social. tipo eu, quando quero ser professora de literatura em comunidade carente.
9) Analista de Cargos e Salários. tipo eu, agora, fazendo exatamente o que estou fazendo.
10) Gerente Geral. Deus.
11) Negociador. terceira profissão requisito existência. meu pai é um exímio, não tem quem aguente jogar cartas com ele. se tivesse esta oferta em meados de 70 talvez a nossa vida hoje fosse outra e eu vivesse de renda.
12) Instrumentista Tubista. tipo o cara que faz a flauta?
13) Faturista. primeiro eu li futurista e já achei legal. depois li faturista e achei melhor ainda. adoro ganhar.
14) Motorista Carreteiro. o sonho de infância.
viver e não ter a vergonha de ser feliz.
quinta-feira, setembro 04, 2008
Par le First Rendez-Vous Rédécouvert.
unique) Se, mesmo lamentavelmente for hora de separar, cada um pega uma ponta da linha e na outra guarda o coração do outro. Amor também é cuidar de si. Cuidar de si às vezes é partir. Deixar partir pode ser manter ainda olhos e mãos bem por perto. Amor é disposição.
e, como em toda partida, uns perdem, outros ganham, outros, ambos.
unique) Se, mesmo lamentavelmente for hora de separar, cada um pega uma ponta da linha e na outra guarda o coração do outro. Amor também é cuidar de si. Cuidar de si às vezes é partir. Deixar partir pode ser manter ainda olhos e mãos bem por perto. Amor é disposição.
e, como em toda partida, uns perdem, outros ganham, outros, ambos.
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