segunda-feira, agosto 31, 2009
quarta-feira, agosto 26, 2009
Dora
Eu olhava pra ela, tanto, tanto que ela não podia me ver. Ela só passava, estampada, e falava, e falava, também tanto que eu eu não podia dizer-lhe nada. Eu só assistia, as mãos delas às voltas, do rosto, do corpo, nos cabelos, tão fortes as mãos dela. Ela me levava através de castelos, cirandas, moinhos, mirandas, luas, gôndolas, tangos, sistemas, campinhos, ela tinha o universo na palavra. Eu a levaria, Bruxelas, Salamanca, Viena, Cairo, Lisboa, Santiago, minha casa, meu jardim. Ela, que não esperava nada, passou e não pousou, não residiu, fincou estaca em outro jardim, e neste jardim, apesar dos avisos, seus pés passavam sobre as plantas. Eu só assistia, ela cada dia refazendo um pedaço do caminho, pedra atrás de pedra, um traço bonito, contornando uma casa, desenho bonito aquele que ela fazia. Ela deixou os cabelos crescerem, uma dia quase não reconheço, as mãos tinham parado, vestido era liso, boca não mexia. Eu acenei algumas vezes, só para dizer que estava ali, que ainda tinha aquele livro das metades que ela tinha me dado, queria dizer que a gente podia colar todas se ela quisesse. Ela nunca ouviu. Eu me mudei, comprei fruteira, geladeira, passagem para Berlim, dei alguns telefonemas ainda, mas ela nunca estava. Pensei na vida, nas escolhas, no que podemos nos tornar. Um dia descrobri que tinha deixado a casa, virado sambista, dançarina, não sei. Disseram que tinha agora muito pouca coisa, uma mesa, uma cadela, dois brincos longos e uma estante de livros, mas que dançava a vida divinamente.
sábado, agosto 15, 2009
Potência
é um segredo. é como ser uma avenida que espera três blocos de carnaval que irão passar ao mesmo tempo. então, é também um mistério.
terça-feira, agosto 11, 2009
Apetite
vem de quanto mais farto. não o tem quem sente fome. não se tem sem ócio, sorte, amor e graça.
sexta-feira, agosto 07, 2009
quinta-feira, julho 30, 2009
quinta-feira, julho 16, 2009
meu bloco: tristeza e pé no chão.
dei um aperto de saudade no meu tamborim
molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas
dei meio tempo de espera para a marcação
e cantei a minha vida na avenida sem empolgação:
vai manter a tradição.
molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas
dei meio tempo de espera para a marcação
e cantei a minha vida na avenida sem empolgação:
vai manter a tradição.
sábado, junho 13, 2009
terça-feira, junho 02, 2009
Foi o seu prefácio que meu "deu o toque", professor. "Goza sem possuir, possui sem gozar". Já o tinha lido mais de dez vezes, mas naquele dia em especial, era o anoitecer mais estranho de todas as sextas-feiras. Atrás de mim, algumas pessoas tentavam afinar suas flautas a seus dedos, deviam ser jovens e estavam dispostas. Ao meu lado, um rapaz talvez tão solitário quanto eu tentava enviar uma mensagem a alguém, o que me impedia de esquivar à memória de que havia também aqueles a quem deveria eu ligar. À minha frente, duas moças desenhavam sentadas na grama. Só saíram de lá quando uma nuvem baixa cobriu o pôr-do-sol e a luz se fez tão fraca que nada mais ultrajava nitidez: continuar seria um erro, uma perda de tempo, e partiram. Fiquei eu a lembrar das outras vezes que ali estive, tão diversas entre si e tão absolutamente opostas ao que trago agora, que neste mesmo mês do ano anterior não poderia sequer supor. Agora estávamos em constrangida evidência, eu e a noite, fecho o livro aberto entre as coxas, visto o casaco e retardo o caminho de volta para casa. Sinto uma fisgada no ombro esquerdo, salva por uma angina, penso, mas era apenas uma formiga.
Vai-te para longe de mim, hora.
O bater de tuas asas me excrucia.
Mas de minha boca, que fazer agora?
e da minha noite? e do meu dia?
Eu não tenho amada nem abrigo,
sequer um lugar para viver eu tenho.
Todas as coisas em que me empenho
tornam-se opulentas, acabam comigo.
Vai-te para longe de mim, hora.
O bater de tuas asas me excrucia.
Mas de minha boca, que fazer agora?
e da minha noite? e do meu dia?
Eu não tenho amada nem abrigo,
sequer um lugar para viver eu tenho.
Todas as coisas em que me empenho
tornam-se opulentas, acabam comigo.
sábado, maio 16, 2009
quinta-feira, maio 14, 2009
cacos
Sempre tenho um certo medo bastante compreensível quando meu corpo me pede para voltar a dançar.
Despertei de um cochilo no meio do dia, num sobressalto, iluminada, como se naquele instante soubesse exatamente o que era a morte.
Fecha a porta, morena, me sorri esses dentes mais brancos que o copo de leite, e abre somente as persianas da janela para que o sol pouse devagar em teus olhos amarelos.
Sabe, o espírito, ninguém diz, mas tem um tamanho, ocupa como eu e você, a água, o ar e o inferno, um lugar no espaço. Ele escapa, ele aperta, ele encolhe, ele expande, ele atravessa, mas não ultrapassa, salvo engano, na maioria dos corpos. Seu tempo tem bem mais de três ponteiros, que o regem como um cabresto, isto é o espírito. A paz do corpo, me parece, é quando ele cabe como um sapato de número certo.
livre para fracassar.
Sempre tenho um certo medo bastante compreensível quando meu corpo me pede para voltar a dançar.
Despertei de um cochilo no meio do dia, num sobressalto, iluminada, como se naquele instante soubesse exatamente o que era a morte.
Fecha a porta, morena, me sorri esses dentes mais brancos que o copo de leite, e abre somente as persianas da janela para que o sol pouse devagar em teus olhos amarelos.
Sabe, o espírito, ninguém diz, mas tem um tamanho, ocupa como eu e você, a água, o ar e o inferno, um lugar no espaço. Ele escapa, ele aperta, ele encolhe, ele expande, ele atravessa, mas não ultrapassa, salvo engano, na maioria dos corpos. Seu tempo tem bem mais de três ponteiros, que o regem como um cabresto, isto é o espírito. A paz do corpo, me parece, é quando ele cabe como um sapato de número certo.
livre para fracassar.
segunda-feira, maio 11, 2009
Es un pedazo del alma que se arrcanca sin piedad.
Hoje choveu abruptamente em Belo Horizonte e eu estava desprevenida. Acredito-me também míope, ou astigmática, ou há dias a medida em que anoitece a cidade tem se transformado em algo que não reconheço. Deveria ter deixado fechada a porta da dispensa escura, suja e fria, onde escondo alguns caminhos.
Hoje choveu abruptamente em Belo Horizonte e eu estava desprevenida. Acredito-me também míope, ou astigmática, ou há dias a medida em que anoitece a cidade tem se transformado em algo que não reconheço. Deveria ter deixado fechada a porta da dispensa escura, suja e fria, onde escondo alguns caminhos.
quinta-feira, abril 23, 2009
segunda-feira, abril 20, 2009
sexta-feira, abril 17, 2009
- Ora, vai mulher! Vou dizer o quanto te amo.
Eu me chamava Carmelita e tinha umas veias azuis meio saltadas na perna esquerda. De vez em quando eu supunha um amor, mas não passava da sexta-feira. Tinha em casa muito bem guardados três colares de contas e um potinho de pó de arroz Lady. Duas pedras gêmeas que havia me dado uma cigana na feira, estas eu carregava comigo, uma no pescoço, outra no sutiã. Depois me tornei Rosa, como as turmalinas.
Eu estava certa em supor amores. Andava descompassada puxando a pena esquerda, mas aquele nêgo que subia a ladeira achava que eu dançava. Me pegou num tombo, uma mão foi no colar e enrubresci como se tivesse um rouge Carmin.
Eu me chamava Carmelita e tinha umas veias azuis meio saltadas na perna esquerda. De vez em quando eu supunha um amor, mas não passava da sexta-feira. Tinha em casa muito bem guardados três colares de contas e um potinho de pó de arroz Lady. Duas pedras gêmeas que havia me dado uma cigana na feira, estas eu carregava comigo, uma no pescoço, outra no sutiã. Depois me tornei Rosa, como as turmalinas.
Eu estava certa em supor amores. Andava descompassada puxando a pena esquerda, mas aquele nêgo que subia a ladeira achava que eu dançava. Me pegou num tombo, uma mão foi no colar e enrubresci como se tivesse um rouge Carmin.
Uma noite cheguei e tinha me pintado o barracão todo de verde e rosa. Então eu era sua bandeira verdadeira, a glória nacional, sua aquarela brasileira. Quando eu saía pedia tamborins de grande gala, para que eu passasse, de sandália e vestido de malha, no meio daqueles bambas. E eu desfilava pro meu mulato forte, cambaleando, era só o que eu queria.
Aquele ano minha escola estava tão bonita. Ensaiei meu samba o ano inteiro, gastei tudo em fantasia, ele dormiu todo o dia. Com muitos brilhos me vesti, depois me pintei. Eu saía para a avenida, ele vestia o bicolor já dizendo que eu era sua nega, sua musa, amada e idolatrada e que jurava por deus, jogava fora o chinelo, o baralho e a navalha e ia trabalhar. Era tudo o que eu queria ver.
Carnaval, desengano, deixei a dor em casa me esperando e brinquei. Precisei voltar mais cedo. Meu moreno fez bobagem, maltratou meu pobre coração, aproveitou a minha ausência e botou mulher sambando no meu barracão. Deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir, minha sandália de veludo deu à ela para sapatear. Esse moreno me deixou sonhando, quarta-feira sempre desce o pano. Amaldiçoei o dia em que lhe conheci.
Hoje a perna anda pelas tabelas, não dança, desce o morro manca, e do tombo minha palma encontra o chão. Sei que o barracão dela anda todo azul e branco e que ela é sua diamantina presença, gota de luz sobre a relva, sua estrela guia, seu brilhante bem-querer.
- Vou abrir a porta para você entrar, mas não demore, que a outra pode lhe encontrar.
quarta-feira, abril 15, 2009
sábado, abril 11, 2009
Sim, levei o xeque-mate. Estava sentada na mesinha da praça e eles eram muito melhores que eu. Consegui algumas vitórias, às vezes até voava no tabuleiro, parecia que era tudo meu. Mas deveria ter parado partidas antes. Alguém me disse uma vez, "xadrez não é jogo para mulheres. Não tente o mundo dos homens, eles te puxarão o tapete quando mais distraída estiver. Não por mal, nem estarão errados, nada disso, é que, apenas, têm melhor consciência que as mulheres daquilo que é deles. E têm, geralmente, muito. Não jogue com os homens, eles sempre ganham". Estava olhando as montanhas naquele absurdo de verde, pensando que deveriam ser macias e doces, quando ouvi o estalido, ele batia freneticamente no sino do relógio, era a minha vez e eu deveria ver de imediato sua cilada. Seus amigos me olhavam, uns orgulhosos, outros se sentindo muito bem representados, outros com aquela cara de "eu já sabia", "lugar de mulher é no fogão"ou "bem que nós tentamos avisar" e eu olhava suplicante para a minha rainha, pedia ajuda, meu rei estava enrascado. Como não havia o que fazer levantei rapidamente, baixei a cabeça acenando agradecida aos senhores pelo privilégio da partida, como fariam os cavalheiros que eles não puderam ser. Meu rei não pôde fugir e eu não pude salvá-lo, e às minhas costas, os homens confrades comentavam que meu bando havia sido derrotado e já se retirava. Segui por uma estrada empoeirada amargando o gosto da derrota, e sabia que eles, ao anoitecer, ergueriam bandeiras e chamariam as moças. Brindariam até a madrugada o alívio e a amizade, o chão borrado pelos passos sobre a cerveja derramada de tanto baterem as canecas tão forte umas nas outras; o chão borrado pelos passos que pude dar mas marcado ainda mais forte pelo que apenas avisto, a festa, a companhia, a música leve, a amizade dos iguais.
quarta-feira, abril 08, 2009
suspeitava
O fechamento em si mesmo, o enquistamento que ergue entre mim e o campo hostil uma barreira de proteção, é uma outra solução geralmente medíocre.
sábado, abril 04, 2009
Você vai resistir, mas vai se acostumar.
Em setenta, até já havia esquecido, ele tinha costeletas, lábio carnudo escarlate, dentes de marzipã, tantos cílios que pesam as pálpebras sobre os olhos verde-água, bigode terminando nas covas, uma energia revolucionária saltando a jugular e a testa franzida por uma inteligência ativa. Inaugurava o Teatro Bandeirantes e cantava os dias após os outros dias - e até acho que soubesse bem no que ia dar a passagem dos anos teria tido mais pudores.
Penso na minha mãe, aparece em meia dúzia de fotos avermelhadas com a minha idade, trabalhando 30% a mais que eu, cuidando de marido, dois filhos, mãe, pai, irmãos e enrolando os brigadeiros do meu aniversário, linda, muito mais que eu, e disposta. Só podia ser o Chico Buarque. Que ainda era lindo e jovem e aparecia cantando - você vai me velar, chorar, vai me cobrir e me ninar, menina - na televisão.
Penso na minha mãe, aparece em meia dúzia de fotos avermelhadas com a minha idade, trabalhando 30% a mais que eu, cuidando de marido, dois filhos, mãe, pai, irmãos e enrolando os brigadeiros do meu aniversário, linda, muito mais que eu, e disposta. Só podia ser o Chico Buarque. Que ainda era lindo e jovem e aparecia cantando - você vai me velar, chorar, vai me cobrir e me ninar, menina - na televisão.
domingo, março 29, 2009
do que aprendi na cozinha
1. Aquilo do que dispomos é, afinal, a melhor proporção e a exata medida.
2. O experimento é a melhor experiência.
3. Confiar na intuição é, sem perceber, saber unir a certeza à incerteza, não gerando uma terceira coisa, mas operando com as duas ao mesmo tempo, dando-lhes igual valor.
4. Tudo depende de tudo e tudo age sobre tudo.
1. Aquilo do que dispomos é, afinal, a melhor proporção e a exata medida.
2. O experimento é a melhor experiência.
3. Confiar na intuição é, sem perceber, saber unir a certeza à incerteza, não gerando uma terceira coisa, mas operando com as duas ao mesmo tempo, dando-lhes igual valor.
4. Tudo depende de tudo e tudo age sobre tudo.
quinta-feira, março 26, 2009
porque as esferas podem girar sobre si mesmas e sobre o círculo que as circunferem, existe dois movimentos na terra, a translação e a rotação. isso nos afeta diretamente, pois um marca os dias, e porque marca os dias, o outro, as estações, e assim, nós, inseridos tangecialmente no mundo, sentimos as semanas e as décadas, e as noites e os outonos.
porque estamos por cima, envolvendo, podemos pensar no mundo como uma bola de malabarista e o universo como um infinito picadeiro, e nossa vida, talvez um bonito espetáculo. os números mudam, alguns nos fazem chorar, outros não dão certo e somos obrigados a refazê-los, mas como a ciência que se sabe exata não tarda muito, às vezes não costuma falhar.
então, se continuarmos sempre com os pés firmes no chão, podemos sentir que a cada dia a terra fez a sua parte, e dentro da gente também nascem sóis, essas esferas amarelas bonitas que nos cegam e chamam. por isso admiro a geografia, por isso vejo mistério em trigonometria, por isso nunca as compreendi.
porque estamos por cima, envolvendo, podemos pensar no mundo como uma bola de malabarista e o universo como um infinito picadeiro, e nossa vida, talvez um bonito espetáculo. os números mudam, alguns nos fazem chorar, outros não dão certo e somos obrigados a refazê-los, mas como a ciência que se sabe exata não tarda muito, às vezes não costuma falhar.
então, se continuarmos sempre com os pés firmes no chão, podemos sentir que a cada dia a terra fez a sua parte, e dentro da gente também nascem sóis, essas esferas amarelas bonitas que nos cegam e chamam. por isso admiro a geografia, por isso vejo mistério em trigonometria, por isso nunca as compreendi.
terça-feira, março 24, 2009
muito cedo. pela segunda vez, mais quatro números. não me é pertimida a recepção:
É coleta?
não, é que tenho uma guia
Pode subir.
ele abre a porta, eu ainda pensava que deveria ter chegado há trinta, ou não ter saído de casa. o andar vazio era um agouro ensurdecedor.
era jovem e tinha os olhos azuis. parecia um colega do curso de francês, Bruno, e eu deveria parecer-lhe a alguém, senão não me olharia em terços.
a urgência opressora do centro da cidade se confundia com um novo de mim, exigindo que eu me fizesse cabisbaixa, que andasse para frente, que lavasse as mãos obsessivamente, a palavra dele erguendo andares na cabeça, eu arremessada ao porão, atrapalhada, asfixiada, molhada, ruidosa, como o centro da cidade em chuva ao meio dia.
Sente-se. Você precisa manter os olhos abertos, fixos e abertos, não dura mais que um toque.
não pude.
Não dói. Você só precisa mantê-los abertos até o final. Vou tocar de leve e você não vai nem sentir.
pisquei. uma lágrima escorreu do olho esquerdo, mas não sei bem porque.
Não se preocupe, só vamos tentar mais uma vez.
lembrei do centro da cidade, das pessoas obstinadas, dos casais nas praças, dos que não questionam seus sonhos, daquela festa africana, do passado distante quando as coisas eram bem mais simples, do ardor em meus olhos que não iria passar até que eu concedesse, de uma vez por todas, aquele toque mínimo e indolor.
de volta à mesa, de caneta em punho, perguntou de onde eu vinha e minha idade. entregou-me escrito:
Olhos calmos, córneas transparentes, pupilas reativas.
É coleta?
não, é que tenho uma guia
Pode subir.
ele abre a porta, eu ainda pensava que deveria ter chegado há trinta, ou não ter saído de casa. o andar vazio era um agouro ensurdecedor.
era jovem e tinha os olhos azuis. parecia um colega do curso de francês, Bruno, e eu deveria parecer-lhe a alguém, senão não me olharia em terços.
a urgência opressora do centro da cidade se confundia com um novo de mim, exigindo que eu me fizesse cabisbaixa, que andasse para frente, que lavasse as mãos obsessivamente, a palavra dele erguendo andares na cabeça, eu arremessada ao porão, atrapalhada, asfixiada, molhada, ruidosa, como o centro da cidade em chuva ao meio dia.
Sente-se. Você precisa manter os olhos abertos, fixos e abertos, não dura mais que um toque.
não pude.
Não dói. Você só precisa mantê-los abertos até o final. Vou tocar de leve e você não vai nem sentir.
pisquei. uma lágrima escorreu do olho esquerdo, mas não sei bem porque.
Não se preocupe, só vamos tentar mais uma vez.
lembrei do centro da cidade, das pessoas obstinadas, dos casais nas praças, dos que não questionam seus sonhos, daquela festa africana, do passado distante quando as coisas eram bem mais simples, do ardor em meus olhos que não iria passar até que eu concedesse, de uma vez por todas, aquele toque mínimo e indolor.
de volta à mesa, de caneta em punho, perguntou de onde eu vinha e minha idade. entregou-me escrito:
Olhos calmos, córneas transparentes, pupilas reativas.
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