Quando chega dezembro a vida tá sempre pouca e quero 80 carnavais.
Quero ser mandarim cheirando a gasolina.
Quero o novo balancê que a multidão comenta, o 8 e o 80.
Pra libertar meu coração eu quero muito mais que o som da marcha lenta.
E quem não vai querer?
quinta-feira, dezembro 01, 2011
terça-feira, novembro 15, 2011
quinta-feira, novembro 10, 2011
Era loura. Tinha uns olhos azuis de partir o coração. Passava uma pintura preta na pouca pálpebra que tinha, e me intrigava, porque do pouco que entendo de perspectivas, isso deveria diminuí-las. Entretanto, nela acontecia o oposto, se lhe abriam, abriam um espaço como todo o universo ao redor do azul da terra. Falava português puxando um x, e eu sabia que em tudo me compreendia, mas punha uma cara de quem pensava em outro sistema: era sua habitual estratégia para me intimidar. Um dia ainda lhe digo, desvio meus olhos da imensidão dos seus e lhe digo: sua cidade vai ser sempre uma pequena revolta dentro de mim. E caso me pergunte, não lhe direi o porque.
terça-feira, novembro 08, 2011
domingo, novembro 06, 2011
Tomas dos zapatos vacíos. Que tengan mi talla, que sean de mi color. Te los pones. Bailas como si yo estuviera delante de ti. Me sonríes, el brazo acomodado sobre mi brazo. Evocas la presión de mi mano en tu cintura. La música es alegre, toda la alegría posible en cada detalle para impedir que mi ausencia se cobre el precio con la melancolia. Al menos así, finalmente bailo bien, no peso, soy liviano ágil perfecto, como si no estuviera.
Herança
Te tenho todo
e te tenho que
deixar.
Escolho um banco
de estação
de trem
do ano.
Te deixo no outono
interminável
uns pedaços de pão
pros pombos
para João
que talvez ainda venha
este ano.
Solto um agudo
o vagão se desprende
um trem que não sai
então te reconheço:
todo esse tempo
- você me diz -
e não faz mais que uma madrugada
que tento conciliar
você e o sono.
e te tenho que
deixar.
Escolho um banco
de estação
de trem
do ano.
Te deixo no outono
interminável
uns pedaços de pão
pros pombos
para João
que talvez ainda venha
este ano.
Solto um agudo
o vagão se desprende
um trem que não sai
então te reconheço:
todo esse tempo
- você me diz -
e não faz mais que uma madrugada
que tento conciliar
você e o sono.
domingo, outubro 30, 2011
No hay pies con zapatos nuevos
como agradan tus amores;
eres entre mil mancebos
hornazo en pascua de Flores
con sus picos y sus huevos.
Pareces en verde prado
toro bravo y rojo echado;
pareces camisa nueva
que entre jazmines se lleva
en azafate dorado.
Pareces cirio pascual
y marzapán de bautismo
con capillo de cendal,
y paréceste a ti mismo
porque no tienes igual.
como agradan tus amores;
eres entre mil mancebos
hornazo en pascua de Flores
con sus picos y sus huevos.
Pareces en verde prado
toro bravo y rojo echado;
pareces camisa nueva
que entre jazmines se lleva
en azafate dorado.
Pareces cirio pascual
y marzapán de bautismo
con capillo de cendal,
y paréceste a ti mismo
porque no tienes igual.
quinta-feira, outubro 13, 2011
Respeto y admiración

Gracias al pueblo llano y simple que me proporcionó el caudal inagotable de su sabiduría para enriquecer mi trabajo. Ese pueblo me enseñó que la tierra está para acariciarla; unos, acariciándola sacan trigo, mientras nosotros acariciándola extraemos su música. Pisoteándola y humillándola no produce ni música ni espigas.
terça-feira, outubro 04, 2011
Prezado Sr Harley Andrade,
Gostaria de esclarecer algumas questões que aparecem bastante equivocadas em sua fala. Algo por si só incompreensível, pois o Sr deve ter por volta de uns 50 anos e no seu tempo de criança a escola pública de Belo Horizonte ainda era muito boa. Provavelmente sua educação deve ter sido de alta qualidade.
Em primeiro lugar, não se usa chamar alguém que você desconhece de mal educado. A sua professora deve ter te ensinado isso. O cidadão de Belo Horizonte não é mal educado, e se o é, apele para os seus colega das secretarias de educação, faça jus à competência que lhe depositam e contribua para resolver algum problema dos que se acumulam nessa cidade. O que o cidadão de Belo Horizonte parece estar sendo é, no máximo, conivente, pois ouvimos pronunciamentos como esse seu e não costumamos fazer muitas coisas. Nosso maior erro.
Em segundo lugar, você é pago para prever o público dos eventos que acontecem na Regional Centro-Sul de Belo Horizonte, não eu, ou os demais cidadãos de Belo Horizonte. Se você não foi capaz de prever os 57 mil cidadãos carentes de eventos gratuitos na cidade que você administra, peça desculpas a nós cidadãos que não conseguimos chgar ao local do evento, apresente um projeto prevendo aumento das linhas de ônibus para o locais dos próximos eventos, ria amavelmente na televisão de maneira que nos tranquilize e jure que jamais irá acontecer novamente. Sua professora deve ter te ensinado a fazer projetos, falta só a boa vontade de tentar resolver e a decência de assumir que não fez seu trabalho adequadamente. Ou melhor, que não vem fazendo seu trabalho adequadamente, pois qualquer evento nessa cidade (e especialmente na regional Centro-Sul) tem sido impossível.
Em terceiro lugar, acredito que na sua casa nem tudo você resolve com proibição. Por exemplo, quando sua filha quer ir pra uma festa, seu filho para um acampamento, sua mulher à promoção da M. Martam e você para algum Happy Hour na Pium-hi com seus outros colegas secretários, acredito que vocês tentam minimamente combinar as coisas, provavelmente você propõe a cópia das chaves de entrada do seu apartamento, aumenta o número de carros na casa (porque certamente sua família não utiliza o transporte púlico de Belo Horizonte, tendo em vista sua fala no Jornal O Tempo), ou algo assim. Imagino que se você proibir a todos de fazer o que eles têm direito de desejar vai dar problemas para você, sua família vai ficar irritada, vão parar de te respeitar e provavelmente não vão mais esperar por você para nada. Imagino igualmente que se algum de seus familiares escolher (arbitrariamente) que você não irá tomar a sua cerveja porque alguém tem que abrir a casa e que é você quem vai pagar o pato, não vai te deixar feliz, mas frustrado e revoltado.
Uma cidade é feita de pessoas como a sua família. Elas não gostam de proibições da mesma forma como você não gosta. Especialmente as proibições arbitrárias, intransigentes e higienistas que estão ocorrendo em Belo Horizonte, por pessoas que pensam assim como você. Acredite, não é um bom caminho. É muito melhor administrar pessoas felizes. Essa regrinha com certeza não foi a sua professora que te ensinou, mas a vida já devia ter feito você entender.
Lamento por você. Espero sua retratação no jornal.
Mirella Adriano.
http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=184039%2COTE
Gostaria de esclarecer algumas questões que aparecem bastante equivocadas em sua fala. Algo por si só incompreensível, pois o Sr deve ter por volta de uns 50 anos e no seu tempo de criança a escola pública de Belo Horizonte ainda era muito boa. Provavelmente sua educação deve ter sido de alta qualidade.
Em primeiro lugar, não se usa chamar alguém que você desconhece de mal educado. A sua professora deve ter te ensinado isso. O cidadão de Belo Horizonte não é mal educado, e se o é, apele para os seus colega das secretarias de educação, faça jus à competência que lhe depositam e contribua para resolver algum problema dos que se acumulam nessa cidade. O que o cidadão de Belo Horizonte parece estar sendo é, no máximo, conivente, pois ouvimos pronunciamentos como esse seu e não costumamos fazer muitas coisas. Nosso maior erro.
Em segundo lugar, você é pago para prever o público dos eventos que acontecem na Regional Centro-Sul de Belo Horizonte, não eu, ou os demais cidadãos de Belo Horizonte. Se você não foi capaz de prever os 57 mil cidadãos carentes de eventos gratuitos na cidade que você administra, peça desculpas a nós cidadãos que não conseguimos chgar ao local do evento, apresente um projeto prevendo aumento das linhas de ônibus para o locais dos próximos eventos, ria amavelmente na televisão de maneira que nos tranquilize e jure que jamais irá acontecer novamente. Sua professora deve ter te ensinado a fazer projetos, falta só a boa vontade de tentar resolver e a decência de assumir que não fez seu trabalho adequadamente. Ou melhor, que não vem fazendo seu trabalho adequadamente, pois qualquer evento nessa cidade (e especialmente na regional Centro-Sul) tem sido impossível.
Em terceiro lugar, acredito que na sua casa nem tudo você resolve com proibição. Por exemplo, quando sua filha quer ir pra uma festa, seu filho para um acampamento, sua mulher à promoção da M. Martam e você para algum Happy Hour na Pium-hi com seus outros colegas secretários, acredito que vocês tentam minimamente combinar as coisas, provavelmente você propõe a cópia das chaves de entrada do seu apartamento, aumenta o número de carros na casa (porque certamente sua família não utiliza o transporte púlico de Belo Horizonte, tendo em vista sua fala no Jornal O Tempo), ou algo assim. Imagino que se você proibir a todos de fazer o que eles têm direito de desejar vai dar problemas para você, sua família vai ficar irritada, vão parar de te respeitar e provavelmente não vão mais esperar por você para nada. Imagino igualmente que se algum de seus familiares escolher (arbitrariamente) que você não irá tomar a sua cerveja porque alguém tem que abrir a casa e que é você quem vai pagar o pato, não vai te deixar feliz, mas frustrado e revoltado.
Uma cidade é feita de pessoas como a sua família. Elas não gostam de proibições da mesma forma como você não gosta. Especialmente as proibições arbitrárias, intransigentes e higienistas que estão ocorrendo em Belo Horizonte, por pessoas que pensam assim como você. Acredite, não é um bom caminho. É muito melhor administrar pessoas felizes. Essa regrinha com certeza não foi a sua professora que te ensinou, mas a vida já devia ter feito você entender.
Lamento por você. Espero sua retratação no jornal.
Mirella Adriano.
http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=184039%2COTE
domingo, setembro 25, 2011
ser-todo
Es apenas un cuchillo, le dije, lo que divide la vida entre el sol y la oscura hipótesis. Vivir, le dije, es esto cuchillo, pero no me oyó. Y sigue.
terça-feira, setembro 13, 2011
segunda-feira, setembro 12, 2011
17:50
- Fíjate en esta luz. Ahora mismo no es de día ni de noche. Éste es el momento de mayor incertitubre del día. Puede pasar qualquier cosa.
domingo, setembro 11, 2011
quarta-feira, setembro 07, 2011
quarta-feira, agosto 31, 2011
quinta-feira, agosto 18, 2011
sexta-feira, agosto 05, 2011
Essa vai especialmente para você, morena.
Juro pela sedução de suas pálpebras e por sua cintura;
juro pelas flechas que seu encanto dispara;
juro pela suavidade de seus membros e por seu olhar agudo;
juro por seus cílios que me impedem o sono
e que me dominam, proibindo e ordenando;
juro pelos escorpiões que sua fronte arremessa,
e que matam os amantes que abandona;
juro pelo rosado das faces bem-feitas;
juro pelo cristal vernelho de sua boca e pérola dos dentes;
juro por seu agradável hálito e pela água doce
que escorre de sua boca com o mel de sua saliva de vinho;
juro por seu colo e estatura em forma de ramo,
sentado, seu peito contém um romã;
juro por suas ancas que se agitam, agitado esteja
ou parado; juro pela esbelteza de sua cintura;
juro pelo seu toque sedoso e leveza de espírito;
juro por toda a beleza que ele contém;
juro por sua afabilidade e veracidade;
juro por sua boa origem e sublime capacidade:
é por ele que o conhecedor define o almíscar,
e a brisa que espalha sua fragância é a dele;
também abaixo dele está o sol brilhante,
e nem a lua crescente vale sua unha cortada.
Juro pela sedução de suas pálpebras e por sua cintura;
juro pelas flechas que seu encanto dispara;
juro pela suavidade de seus membros e por seu olhar agudo;
juro por seus cílios que me impedem o sono
e que me dominam, proibindo e ordenando;
juro pelos escorpiões que sua fronte arremessa,
e que matam os amantes que abandona;
juro pelo rosado das faces bem-feitas;
juro pelo cristal vernelho de sua boca e pérola dos dentes;
juro por seu agradável hálito e pela água doce
que escorre de sua boca com o mel de sua saliva de vinho;
juro por seu colo e estatura em forma de ramo,
sentado, seu peito contém um romã;
juro por suas ancas que se agitam, agitado esteja
ou parado; juro pela esbelteza de sua cintura;
juro pelo seu toque sedoso e leveza de espírito;
juro por toda a beleza que ele contém;
juro por sua afabilidade e veracidade;
juro por sua boa origem e sublime capacidade:
é por ele que o conhecedor define o almíscar,
e a brisa que espalha sua fragância é a dele;
também abaixo dele está o sol brilhante,
e nem a lua crescente vale sua unha cortada.
quarta-feira, agosto 03, 2011
quinta-feira, junho 30, 2011
wild tigers
Silence is a power and tool for you
for you
Wild Tigers I Have Known
they see me down, messin' around.
You keep your heart from your chest
It'll be gone, just like the rest.
Cause it's a man's world,
say all the right words,
and hold your heart from your chest.
The silence and the call,
and their beauty,
stands right and still for you.
for you
Wild Tigers I Have Known
they see me down, messin' around.
You keep your heart from your chest
It'll be gone, just like the rest.
Cause it's a man's world,
say all the right words,
and hold your heart from your chest.
The silence and the call,
and their beauty,
stands right and still for you.
quarta-feira, junho 08, 2011
de tanto silêncio meu ele aprendeu
e tinha muito trabalho a fazer
além do mais, um mar gigante um céu
todo azul e aquelas moças oferecendo
biquinis amarrados nas nucas expostas
salgadas
morenas
quase morro, achei que era um filho
e não era, talvez um gato, um amigo
que chega de muito longe e traz sonhos
da esquina dizendo que o táxi passou do número
e havia uma padaria na
volta
então riu, quando ele ri percebo o tempo
os três juntos que é onde parece localizado
amplo e limpo, um riso vermelho e amarelo
como o leque aberto que forma a cidade
de onde veio -
e não era filho era um par como jamais
pensei que tivesse, dois nomes como textos
contíguos imagens em metades completando
uma tarde fria de fim de outono do outro lado do mundo
por trás da cortina
dentro da moldura
pressionando o nervo da parede até que ela fique com as mãos dormentes.
e tinha muito trabalho a fazer
além do mais, um mar gigante um céu
todo azul e aquelas moças oferecendo
biquinis amarrados nas nucas expostas
salgadas
morenas
quase morro, achei que era um filho
e não era, talvez um gato, um amigo
que chega de muito longe e traz sonhos
da esquina dizendo que o táxi passou do número
e havia uma padaria na
volta
então riu, quando ele ri percebo o tempo
os três juntos que é onde parece localizado
amplo e limpo, um riso vermelho e amarelo
como o leque aberto que forma a cidade
de onde veio -
e não era filho era um par como jamais
pensei que tivesse, dois nomes como textos
contíguos imagens em metades completando
uma tarde fria de fim de outono do outro lado do mundo
por trás da cortina
dentro da moldura
pressionando o nervo da parede até que ela fique com as mãos dormentes.
quinta-feira, maio 26, 2011
A Associação Brasileira de Linguística (Abralin) divulga nota de repúdio contra a cobertura tendenciosa da imprensa.
Língua e ignorância
Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.
Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.
A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.
Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".
Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.
Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.
Maria José Foltran
Presidente da Abralin/Gestão UFPR 2009-2011
Retirado de: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/abralin-divulga-nota-de-repudio
Língua e ignorância
Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.
Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.
A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.
Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".
Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.
Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.
Maria José Foltran
Presidente da Abralin/Gestão UFPR 2009-2011
Retirado de: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/abralin-divulga-nota-de-repudio
quinta-feira, maio 19, 2011
Dessa vez ela voltou diferente, como quem marca, pé ante pé, um desinteresse pela luz amarela que faz esse dia.
Seus olhos não são mais dois grandes poços vivos, seu riso não me engole, sua saia não me roça.
Nem é breve o seu andar, balançado, vai calculado como meta milenar, compasso de pingo de torneira frouxa.
Mas de tudo esvanecido, o que mais se sente a falta é sua cintura que perdeu a antiga função saturnina de reger braços astros.
Seus olhos não são mais dois grandes poços vivos, seu riso não me engole, sua saia não me roça.
Nem é breve o seu andar, balançado, vai calculado como meta milenar, compasso de pingo de torneira frouxa.
Mas de tudo esvanecido, o que mais se sente a falta é sua cintura que perdeu a antiga função saturnina de reger braços astros.
domingo, janeiro 23, 2011
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